domingo, 16 de agosto de 2009

oração do amor efêmero

"Eu quero ficar aqui. Eu quero ir pra longe, pra longe do comum e do previsível. Eu quero um amor que me leve, me ame com certeza, com a segurança de saber se mostrar e a insegurança necessária – pra que ele me conquiste todos os dias. Quero um amor que machuque minha boca de vez em quando, porque queria muito.

Vamos sumir, vamos sair, ser estranhos perto e longe de todo mundo. Eu quero um amor que me puxe com força e não me dê opção senão me deixar levar, eu quero-quero-quero ir (com você). Eu quero um amor que me perca, me ache, me ganhe com o tempo. Que me guie, me guarde, me governe, me incendeie, me cause insônia e raiva e ciúme e lágrimas e febre e riso. Eu quero um amor que me canse, me canse, não se canse nunca, não canse de mim e se canse. Eu quero um amor de verdade, puro, limpo, imaculado, sagrado, que vá até o fundo, até onde ninguém foi.

Eu quero um amor que me olhe nos olhos, não tenha medo de se jogar no abismo, de se jogar em mim, disposto a arder no inferno por nós. Que esteja lá não importando para onde eu queira ir, não importando o quanto doeu aquele tapa, seja dentro ou fora. Eu quero um amor de janta e café da manhã, que não prometa nada, que não dê nada além do que for tão verdadeiro que me deixe doente, louca, rouca, suada, cansada, que arranque minha paz junto com meu coração. Eu quero um amor que me leve até o fim."


*Adaptado de um texto de autor desconhecido

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Alice

Alice saiu do banheiro enrolada em sua toalha. Alguém tocava a campainha insistentemente, e mesmo que ela gritasse “já vou!”, correndo em direção à porta do seu apartamento, um inconveniente visitante não parava de requisitar sua entrada através daquele som irritante. A moça mal podia se secar ou esconder seu corpo nu na pequena toalha branca. Espiou pelo olho mágico e não viu ninguém.

– Quem está aí? - perguntou com uma perceptível alteração na voz.

– Alice, apenas abra a porta.

Percebeu que a voz - uma voz sedutora - vinha de dentro da casa. Virou-se, e viu um homem de terno que lhe apontava um revólver com um silenciador. Com a outra mão, ele segurava uma pequena caixa.

– Vamos, Alice, facilite as coisas para nós.

Então era isso. Ele poderia simplesmente ter entrado e saído da casa enquanto ela tomava banho, mas preferia humilhá-la daquele jeito. Queria que ela visse o quanto foi tola. Queria intimidá-la.

– A caixa é minha. - ela respondeu.

Era sua. Agora ela está em minhas mãos, assim como você.

Alice deixou que a toalha caísse no chão. Fitou os olhos daquele homem que saboreava o seu corpo de longe.

– Sim. Estou em suas mãos. - disse mordendo os lábios.

O desconcerto do invasor era mais perceptível que o volume que se formava em sua calça.

– Ajoelhe, Alice. Engatinhe até aqui.

Ela obedecia sem deixar de fitá-lo. A arma ainda apontando para ela. Tocou a parte volumosa da calça, num gesto extremamente sexy. Ele deixava que ela brincasse com seu corpo, sem perdê-la da mira do revólver, e a beijou quando ela aproximou os lábios. Sempre desejou aquela intrometida. Desde a primeira vez em que ela interferiu nos seus planos, quando ainda se chamava Camila.

Alice o golpeou. Antes que ele pudesse reagir, ela já estava com a arma em suas mãos e pronta para atirar.

– A caixa é minha, Juan, e eu não vou falar outra vez.

Ele sorriu. Quis estar nas mãos dela. Quis ser morto por sua musa inimiga.

– Você vai ter que comprá-la.

O estrondo. Alice não gostava de silenciadores.

– Com o seu sangue?

E quando fugiu da cidade, seu nome já era Elizabeth.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

tanto faz

Era uma vez uma menina, na beira do rio de águas vermelhas. Ela tinha olhos grandes. Ela tinha olhos.
Poderia ser desinibida, simpática ou comunicativa. "Poderia ser" nunca foi. Poderia ser, mas nunca foi.
Era retraída, voltada pro seu umbigo. E ela tinha um olho na barriga.
Vestia-se com fitas coloridas e cada dia era o que quisesse. Podia ser qualquer coisa.
Na beira do rio de águas vermelhas, ela era o que quisesse, podia ser qualquer coisa. Qualquer coisa ela seria. Fechada no seu mundo ao redor do umbigo.
Dizia-se doente. Não se sabe se da cabeça ou do coração.
A menina era menina ou menino? Qualquer coisa ela seria.
E o rio de águas vermelhas, talvez fosse só sangue.
No seu mundo, mil mundos. Um universo com vários paralelos. Experiências cósmicas.
As fitas coloridas eram negras. Ficavam quentes. Ela precisava de calor.
O olho na barriga ambicionava coisas inimagináveis. Que só ela pensaria em querer.
Sua doença era o seu legado de morte. A morte, que sempre vai e volta.
Mas ela tinha olhos. Olhos grandes.

segunda-feira, 23 de março de 2009

avô

O meu avô é um velhinho baixo e meio gordo. Ele tem olhos verdes, pequenos e que denotam algo pueril. Sua pele é relativamente branca, assim como o cabelo curtinho.
Houve uma vez em que eu queria uma boneca e insisti muito por ela, mas minha mãe não queria me dar; meu avô a comprou pra mim. E eu não tinha pedido a ele.
Eu não sei por que isso me marcou. Talvez porque eu achasse que ele não ligava muito pra mim. Ele tem um monte de netos, alguns que se fizeram mais presentes em sua vida do que eu. Ou talvez porque nunca alguém havia me dado tal atenção, e eu não esperava que ela viesse justamente daquele velhinho barbudo que andava por aí com um chapéu.
Naquela época, eu devia ter uns seis anos.
Eu tenho 17 anos, e o meu avô quase noventa. Eu vivi muitos outros momentos com ele depois daquele episódio, e quero guardá-los. Mas se eu tivesse que escolher uma memória, uma única memória do meu avô, com certeza essa seria a escolhida. Porque existem pessoas que te surpreendem dando aquilo que vai te trazer uma felicidadezinha, e são aquelas de quem você não espera muito, enquanto deveria esperar o melhor delas.

Vovô, se este for o seu momento de ir, iremos compreender, ainda que sentindo uma falta imensa no peito. E se não for, nem sei. É meio inominável.

sábado, 29 de setembro de 2007

waiting

Ela só ia lavar as mãos, para tirar por um instante aquele perfume da flor, impregnado na sua mão esquerda. Mas notou algo de estranho no espelho. Algo líquido.

Encostou o caule de sua flor no espelho, e toda a superfície se ondulou. Sentiu-se irreversivelmente atraída pelo inesperado e desconhecido; Largou a flor e mergulhou no espelho emoldurado, que havia sido de sua bisavó.

Sentiu todo o seu corpo ficar molhado, e era uma sensação tão boa.

Porém, algum tempo depois, sentiu que seu corpo estava sendo congelado. Olhou a sua volta, e então percebeu como o líquido se solidificava aos poucos. Nadou o máximo que pôde para voltar, tentou sair de dentro daquele quadro refrator, mas tudo o que conseguiu, numa última tentativa, foi trazer para si a sua flor.

Então, tudo parou. A menina, com uma flor na mão, estática. Tudo era silêncio.

sábado, 11 de agosto de 2007

jardim

Ela estava em um jardim imenso, cheio de flores belíssimas, do tamanho de prédios.
Andava olhando para cima, vislumbrando aquelas pétalas enormes. Montado em uma joaninha, o garoto pálido apareceu.
- Que achas?
Ela, como se não houvesse escutado, continuou olhando para todos os lados, encantada. Virou-se para o garoto, que descia da joaninha, e disse:
- Agora eu quero uma flor que caiba em mim.

terça-feira, 26 de junho de 2007

mais metáforas

Ela subiu a colina. Pôde ver o Sol se pondo, à esquerda, porém sem parar de caminhar. Depois de algum tempo, não havia mais como seguir. Ela se viu diante de um abismo. Hesitou uns dez minutos, e finalmente deu três passos, lançando-se assim naquele profundo abismo.
Enquanto caía, Ela pensou em muitas coisas. Pensou em que tipo de pessoa faria exatamente aquilo que o seu inimigo mortal recomendara, pensou em quem seria o seu inimigo mortal, pensou em por que estaria vendo pontos luminosos e pensou em por que aquela queda estava sendo tão longa.
Antes que pudesse concluir qualquer pensamento, sentiu um impacto. Um impacto, mas não uma dor. Então sentiu uma disposição sobrecomum, como se tivesse acordado de um sono de anos.
- Bom dia, minha querida.
Ela abriu os olhos e sorriu ao ver o garoto pálido. Olhou em todas as direções para entender o que se passava, porém só ficou mais confusa.
- Não se preocupe, estarei aqui para responder às suas perguntas. - disse o garoto.
- Nem que seja com o silêncio. - Ela replicou, um tanto sarcástica.
- Exatamente.
- Aonde estamos?
- Você está no Reino de Alecrim.
- Alecrim? Alecrim lembra alegria. - Ela disse levantando-se do chão forrado com lençóis branquíssimos.
- Há muito tempo, o dono do Circo de Alecrim, o Palhaço, enlouqueceu. Ele construiu um circo gigante, nunca visto antes. Um circo, segundo ele, mágico. Nele só podem entrar artistas, e o mais importante, artistas felizes. É onde você está agora.
Ela olhou a sua volta, e então entendeu porque estava amplamente cercada por uma lona colorida.
- Enlouqueceu?! Não, o Palhaço teve uma grande idéia.
Pôs-se a andar pelo reino, observando cada artista. Era tudo tão feliz e harmonioso, que Ela sentiu náuseas.
- Escutem, qual é o defeito deste lugar? - Ela ousou perguntar em voz alta.
- Aqui não há imperfeição alguma, minha cara. - disse o Palhaço, com a confirmação de toda aquela gente.
Ela e o Palhaço fitaram-se. Silêncio. Depois de muito tempo, Ela disse:
- Faz algum tempo que estou aqui, e desde então não vi ainda o nascer de um novo dia.
- Estamos presos nesta noite, caríssima. O tempo já não existe para nós.
- Sinto muito.
- Sente muito? Mas isso é maravilhoso! O céu está sempre estrelado e a lua está sempre cheia! Viveremos assim para sempre! Nós escolhemos deste o nosso último momento.
- Entenda, meu caro. Estas estrelas de que falas estão tão longe que sequer posso senti-las. Quero antes a estrela que nos cega de tanta luz. Quero antes a estrela que a Lua nos esconde. Quero antes o Sol!
- Preferes o tempo?
- O tempo sempre foi o meu remédio. A eternidade, ah, a eternidade deve ser muito chata.
- Então siga o seu caminho.
- Mas para onde irei agora que já cheguei até aqui?
- Para o norte. Para o norte sempre.
Ela saiu do circo e sentou-se à espera do Sol. Tirou as meias porque resolveu que seguiria descalça agora. Queria sentir o Sol, e os pés no chão.

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